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Curly aos Bocadinhos

Curly aos Bocadinhos

Leitura Terminada

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Este livro é totalmente diferente do anterior. E dou por mim a pensar que fiz uma escolha errada na ordem das leituras. Se calhar devia ter lido este primeiro e depois o outro.

 

Toda a gente se lembra daquelas histórias dos náufragos que dão à costa numa ilha, sozinhos ou em grupo, e que depois vivem uns tempos nessa ilha, ou completamente isolados lutando pela sobrevivência ou em confronto com nativos locais que, normalmente são retratados como violentos perante estranhos, dada a sua não integração numa civilização dita estruturada. Robinson Crusoe e, porque não?, aquela série interminável do Lost (da qual acho que vi o primeiro episódio e depois aborreci-me). Aliás, o próprio narrador indica-nos algumas dessas referências literárias como, por exemplo, A Ilha de Coral, que provalvelmente foi um dos livros que povoou o seu imaginário na infância ou na juventude e que o terá inspirado para este livro.

Só que, William Golding, apresenta-nos uma visão um pouco mais negra destes cenários. E, portanto, nessa perspectiva, este livro é completamente diferente, apesar de partir de uma situação muito parecida com a do Lost, em que um avião se despenha junto a uma ilha.

Este livro é maravilhoso pela escrita do autor. É uma escrita bela, cheia de muitos pormenores, numa construção de frases muito bem conseguida, com recurso a palavras um pouco mais complexas do que em alguns livros que lemos hoje em dia. Nota-se uma preocupação com as palavras e com a boa construção de frases.

Este livro foi escrito em 1954 e o seu autor ganhou o Prémio Nobel de Literatura em 1983. É uma obra de ficção distópica, com uma visão um pouco mais negra, apocalíptica.

Portanto, o livro começa quando um grupo de crianças inglesas, entre os 5 e os 13 anos, naufraga numa ilha depois do avião onde viajavam apenas na presença de um adulto (o piloto) ser abatido e se despenhar. Estas crianças vestiam os seus trajes colegiais e parte do grupo pertencia a um coro e era com essas vestes que se apresentavam.

Logo no início questionei por que raio iam tantas crianças desacompanhadas num avião, mas enfim, devia haver alguma razão para isto, num cenário de aparente guerra (há uma altura no livro em que uma das crianças avista no céu, muito ao longe, uma explosão de luzes que parece remeter para bombardeamentos). Portanto, a viagem poderá ter sido algum resgate.

O avião acaba por cair no mar, próximo de uma ilha. O piloto morre e as crianças sobrevivem e abrigam-se na ilha completamente por sua conta. Esta ilha é o cenário onde toda a história decorre. É uma ilha linda, paradisíaca, localizada em aparentes latitudes tropicais, considerando a descrição das frutas e da vegetação. Mais tarde, pela descoberta por parte das crianças de um recife de coral, pensamos logo numa ilha na zona do Pacífico. Um lugar idílico e de sonho que deixa as crianças inicialmente encantadas por estarem num lugar tão bonito e livre de adultos, de responsabilidades e de regras sociais às quais estão habituados.

O autor descreve a ilha com muita riqueza e vai explicando o cenário com detalhes minuciosos. Devido ao coral que cria uma zona de piscina natural na ilha, a abundância de frutos e peixe, a existência de água doce, as crianças ao início divertem-se, brincam, comem e são felizes, apesar de começarem a pensar no que lhes vai acontecer e como podem fazer para ser salvos, para que alguém os venha resgatar da ilha e levar para casa (especialmente os mais pequeninos, que vão choramingando muitas vezes com saudades de casa e devido ao medo). Ou seja, apesar do naufrágio, as crianças parecem ter as condições ideais para a sobrevivência. Até que descobrem que existem porcos selvagens na ilha e surge o despertar do ímpeto da caça por parte de algumas crianças. Creio que é o que está na base da fractura que surge a partir daí no grupo e o que leva ao cenário mais negro e cruel que vem depois.

A crueldade das crianças nota-se logo no início, quando o menino gordo e de óculos se apresenta e ninguém quer saber o seu verdadeiro nome, pelo que até ao fim é sempre conhecido e chamado pela alcunha Piggy (porquinho).

O livro está carregado de simbologias e fico com a sensação de não ter de todo apanhado nem metade. Mas, na minha interpretação, Piggy era o detentor do conhecimento e da razão e os seus óculos representam a ciência (são os seus óculos que permitem que as crianças consigam fazer fogo). O búzio acaba por ser o símbolo da (tentativa de) democracia que se tenta inicialmente instaurar na ilha. Ralph é a criança eleita como chefe pelo povo, portanto, o exemplo prático da democracia a funcionar e também da justiça. A fogueira é o símbolo da salvação e do conhecimento, que precisa de ser usado com sabedoria, sob pena de fugir do controlo e levar a situações desastrosas. As crianças do coro representam uma espécie de exército que segue cegamente as ordens que lhe são dadas. Jack é o símbolo da guerra e da selvajaria e Simon um símbolo da religião, um elemento mais espiritual nesta história. O monstro representa o medo do desconhecido e um pouco também a natureza humana no seu estado mais animal.

“O Deus das Moscas”, considerando aquilo que efectivamente é e considerando que é visto por Simon, o tal personagem com uma visão um pouco mais espiritual, creio que é uma crítica à religião, à adoração de um Deus ilusório. Vem ridicularizar um pouco esta adoração por algo que afinal pode ser apenas uma coisa coberta de moscas.

À medida que vamos acompanhando a história, creio que a mensagem que é passada é a de que a crueldade existe dentro das pessoas e surge quando somos pressionados e desperta o instinto de sobrevivência. Fica claro nesta história que tendemos para a crueldade gratuíta, para a selvajaria mesmo sendo crianças inocentes, que com as estruturas sociais estavam contidas no que toca aos seus sentidos animais.

Deixo o aviso de que, apesar de a escrita ser belíssima, o livro não é fácil de ler, devido à crueldade de algumas partes. Se calhar mais ainda por as personagens serem crianças e não querermos acreditar que pudessem ser tão cruéis. Porque temos esta ideia de que as pessoas nascem puras e inocentes e só quando se tornam adultas é que se corrompem e, portanto, só aí é que o homem liberta o seu estado mais animalesco, seja por uma questão de sobrevivência, seja por ter prazer em ser mau. Ou seja, traz-nos uma reflexão sobre a maldade não ser necessariamente algo que é aprendido, mas sim algo que é inato.

Creio que este livro vem fazer uma certa crítica ao heroísmo e capacidade de superação de outras história de naufrágos, mostrando a natureza obscura do ser humano, capaz de cometer actos cruéis quando motivado pelo medo e pela vontade de sobreviver.

 

Mas, apesar de algumas partes mais difíceis, é um livro absolutamente espectacular.

 

 

PS - Peixinho de Prata, achas que tive perto de compreender alguma coisa de jeito sobre este livro e sobre o Siddhartha?

 

 

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