Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Curly aos Bocadinhos

Curly aos Bocadinhos

A última fita do ano...

babel-poster01t.jpg


Como se costuma dizer que devemos terminar o ano a fazer algo que gostamos ou que gostaríamos de continuar a fazer no ano vindouro, não podia deixar de ir ao cinema ver mais um filmezito, antes que soassem as 12 badaladas a anunciar o fim de 2006.

Depois de uma grande indecisão entre “Déjà Vu” e “Babel”, e de quase ponderar ver os dois no mesmo dia em sessões diferentes, lá foi tomada uma decisão. O último filme do ano foi “Babel”. “Déjà Vu” será visto em 2007.

Acho que não saí a perder com a escolha por “um-dó-li-tá”.

Brad Pitt e Cate Blanchett fazem de Richard e Susan, um casal que está de férias em Marrocos, numa tentativa de reconciliação do casamento. Quando viajam de autocarro, Susan é subitamente atingida por um tiro, dado acidentalmente por um de dois garotos irmãos quando testavam uma arma recém-comprada pelo pai. Este facto gera uma série de consequências na vida de outras personagens. Desde logo, na vida dos garotos e dos seus pais. Depois, na vida dos próprios filhos de Richard e Susan, porque a ama que se vê forçada a ficar com os meninos mais tempo do que previa, decide levá-los para o México para não perder o casamento do filho. Enquanto isso, no Japão, uma menina surda-muda luta para superar a morte de sua mãe, problemas de rejeição e romper preconceitos sociais, e o seu pai é procurado pela polícia de Tóquio, por motivos que mais tarde descobrimos estarem relacionados com os acontecimentos em Marrocos.

Achei um filme fascinante, profundo e muito, muito intrigante. Tão intrigante que vou ter certamente de o rever duas ou três vezes e mesmo assim talvez não consiga atingir plenamente o verdadeiro sentido daquele filme. Para além de ser um filme sobre histórias paralelas, de vidas que se cruzam em algum ponto, muitas vezes sem os próprios imaginarem, e de falar sobre barreiras linguísticas, culturais e pessoais, focando-se em três continentes, e ainda incluir os temas do terrorismo, imigração e suicídio, é um filme repleto de subtilezas e segundo sentidos.

O título do filme tem origem na Torre de Babel mencionada no livro bíblico do Génesis como uma torre enorme construída pelos descendentes de Noé, com a finalidade de tocar os céus e para que não fossem novamente surpreendidos por um dilúvio. Deus, irado com a ousadia humana, teria feito com que todos os trabalhadores da obra começassem a falar em idiomas diferentes, de modo a que não se pudessem entender, e assim, acabaram por abandonar a sua construção. É com este episódio que, segundo a Bíblia, se explica a origem dos idiomas na humanidade.

De facto, comum a todas as personagens parece ser o isolamento e a dor, em muito provocados pela falta de comunicação e entendimento entre as pessoas.

A trama dos dois garotos reflecte um pouco da paranóia americana do pós-11 de Setembro, que faz com que o ocorrido logo seja considerado um acto terrorista e foca bem o aspecto da facilidade com que naqueles países se colocam armas nas mãos de crianças. A da ama espelha as diferenças de costumes entre México e Estados Unidos, e a já conhecida dificuldade enfrentada pelos mexicanos para entrar nos EUA, e moraliza um pouco com a ideia de que alguém que só queria o bem a duas crianças saiu altamente prejudicada, por ser mexicana, e não se percebe exactamente o que realmente sucedeu às crianças. A de Richard e Susan tem como pano de fundo (para além dos problemas de comunicação entre o casal, que os levam a viajar para outro Continente deixando para trás dois filhos, na esperança de que atravessar uma fronteira resolvesse os seus problemas) o medo e o preconceito dos restantes passageiros do autocarro em que estavam, que desejam sair do local o mais rapidamente possível, mesmo que isto signifique abandoná-los. Aqui também subjaz a moralização da falta de solidariedade dos cidadãos ocidentais, que só olham para os seus umbigos, e não hesitam em deixar o casal sozinho em Marrocos, ao passo que o povo do vilarejo onde se encontram é extremamente prestável e gratuitamente, já que a compensação monetária de Richard não é aceite. E a trama japonesa reflecte principalmente a angústia da rejeição sentida por uma adolescente, que faz com que tente compensá-la oferecendo seu próprio corpo aos homens, numa tentativa desesperada de agradar.

Enfim, está aqui um post enorme e acho que não consegui focar nem metade do que está patente naquele filme.

Quando o revir, certamente encontrarei mais pormenores que me escaparam e isso deverá dar azo a mais um post.

PS – Achei curioso que num filme sobre barreiras culturais e linguísticas tivesse calhado ao meu lado um casal cujo membro masculino era estrangeiro e então tinha uma tradutora em todas as cenas não faladas em inglês. Na altura aquele “bichanar” da rapariga a toda a hora incomodou um bocado, mas…que coincidência!!